quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Dos amigos e inimigos dos EUA


No mundo do capital, dominado pelo império estadunidense, as noticias que passam nos jornais de TV ou que saem nos impressos são apenas aquelas que interessam ao poder. Vejam o caso do policial Óscar Pérez, abatido em combate com as forças venezuelanas. Durante as guarimbas (protestos violentos promovidos pela oposição venezuelana, que deixaram mais de 100 mortos), ele se amotinou e roubou um helicóptero da força policial onde atuava, jogando granadas no prédio do Tribunal Superior de Justiça. Por pura sorte não causou vítimas fatais.  Gravou vídeos contra o governo e atuava como uma espécie de “rambo”, realizando ações ousadas e chamando o povo para se rebelar. Não conseguiu mais do que um pequeno grupo que o acompanhava. Por sua ação criminosa de bombardeio do TSJ foi dado como foragido e estava sendo procurado pela polícia. Ele seguia ameaçando o governo, prometendo novas ações violentas. Morreu num enfrentamento com a polícia, a qual foi recebida à bala. Dois outros policiais morreram também no mesmo episódio que culminou com a morte de Pérez. 

Na mídia mundial a informação que circula é de que Pérez foi assassinado friamente. Há até quem fale em um massacre, de mulheres e crianças. As mentiras se avolumam e se propagam sem parar. Cada um aumenta um ponto. Poucos falam da ação criminosa de Pérez ou de suas constantes ameaças, inclusive de matar o presidente. A Venezuela é um país que vive uma dura luta de classes desde que Hugo Chávez se elegeu em 1998, com um grupo opositor – a velha elite – violento e capaz de tudo para retomar o controle do país. Justamente com esse objetivo, esse pequeno, mas poderoso grupo, tem aplicado um guerra econômica, escondendo produtos, levando a fome para o povo venezuelano, tentando desestabilizar o governo atacando a população. Foi assim com as guarimbas, que levaram a morte a mais de 100 famílias. Ainda assim, a mídia considera que a culpa de tudo o que acontece é do governo. Claro, o governo de Maduro é inimigo dos Estados Unidos. Então, contra ele, tudo. 

Já os amigos dos Estados Unidos podem cometer todas as atrocidades que isso não aparece em destaque em nenhum jornal. Israel contra a Palestina é um exemplo bem antigo. O estado sionista, que é amigo dos EUA, invade territórios, expulsa famílias, prende crianças, mata gente a granel e ainda aparece como vítima nas páginas dos jornais e nas telas da TV. 

E agora, vejam o caso do Iêmen, um pequeno e empobrecido país do Oriente Médio, onde um grupo rebelde luta para garantir a liberdade do país que é dominando por grupos aliados da Arábia Saudita, amiga dos Estados Unidos. Lá, também há um bloqueio de produtos contra a população, que tem levado fome a milhares de pessoas.  Quem fala disso? Segundo informações divulgadas timidamente pela BBC de Londres, estima-se que mais de 20 milhões de pessoas estejam impedidas pelas forças governamentais de receber ajuda que chega de outras partes do mundo. 

O conflito no Iêmen é tratado pela mídia como um caso de guerra civil, interna, que teve seu início na chamada Primavera Árabe, quando o presidente que governava havia 33 anos foi deposto. Depois, o seu substituto foi se aliando aos interesses da Arábia Saudita e foi considerado traidor. Isso motivou o seguimento da rebelião. Mas, em um determinado ponto do conflito começaram a surgir informações de que os rebeldes estavam sendo financiados pelo Irã, que é inimigo dos EUA. Então, para combater o “eixo do mal”, a Arábia Saudita, que é amiga dos EUA, providenciou “ajuda” ao governo. Assim, os rebeldes que lutam pela formação da república Popular do Iêmen, são demonizados, enquanto as forças governamentais, aliadas dos sauditas, amigos dos EUA, são mostradas como as forças do “bem”. A região tem suas complexidades, e nada é assim tão simples. Mas é assim que a coisa é tratada. Na verdade, a destruição causada pela guerra e a interferência externa nos conflitos internos entre grupos, além de trazer profundo sofrimento ao povo, ajuda a criar um novo caldo de fundamentalismo, com a ação de grupos extremistas diversos, alguns, criminosos, que crescem em meio ao caos, provocando mais destruição e morte. 

Por conta dessa guerra, em dois anos já morreram mais de 10 mil pessoas, sendo que cinco mil eram crianças, conforme dados da Organização das Nações Unidas. Ou seja, metade das vítimas são crianças. E onde está essa informação? Porque ninguém se importa com essas crianças? A resposta é simples. Elas fazem parte de um povo que é inimigo dos EUA. 

Da mesma forma que a Venezuela sofre com a falta de comida por conta de um bloqueio imposto pelos EUA, o Iêmen também sofre. Mas, não importa. Para a mídia, se são inimigos dos EUA, são todos bandidos e devem morrer. A Unicef divulgou na última semana que mais de 400 mil crianças estão em processo grave de desnutrição no Iêmen, por conta do bloqueio. Mas, para a mídia comercial, não importa. São árabes “do mal”, então, se morrerem, melhor. 

Cuba já viveu todo esse terror e sabe muito bem o que significa viver em permanente bloqueio comercial. Durante o chamado “período especial”, quando a União Soviética acabou, e era o único bloco que vendia produtos a Cuba, a pequena ilha viveu duros tempos, de muita fome e sofrimentos indizíveis. Mas, as gentes sobreviveram, sabe-se lá como. E seguem enfrentando um bloqueio criminoso. E a cada baque que sofre o povo, regozija-se a mídia comercial internacional, saudando o fim do regime socialista. Não importa se morrem as gentes, se há fome, se há dor.  

Da mesma forma a Venezuela, que hoje está enfrentando essa terrível tortura imposta pelos EUA que é a de matar pela fome. E quando se defende, vê-se retratada como uma ditadura.  

O Iêmen, lá longe, perdido entre os milionários do petróleo que querem seu território para garantir a passagem dos navios petroleiros pelo estreito de Bab-el-Mandeb, ligando o oriente com a África, está sendo atacado por uma ditadura, a da Arábia Saudita. Mas, essa não é chamada de ditadura. Porque é apoiada pelos EUA. E aqueles homens, mulheres e crianças que se rebelam, são considerados inimigos do capital, inimigo dos EUA. Então, nada se noticia sobre eles. Nada se diz de sua complexa e dura realidade. E enquanto se formam correntes de dor e pesar pela morte do soldado venezuelano que caiu em combate, lutando para derrubar um governo eleito democraticamente pela maioria da população, nenhuma lágrima cai pelas 400 mil crianças que morrem lentamente, de fome, no Iêmen.

São os dois pesos, duas medidas de um mundo violento, no qual os interesses financeiros de um pequeno grupo se sobrepõem aos desejos de liberdade e de vida bonita de uma maioria que é avassaladora, mas ainda sem poder. É a expressão concreta da luta de classes. Conhecer a realidade, então, é fundamental, para que cada um possa saber onde se posicionar.


segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O marrentinho



Cuidar de uma pessoa velha requer um longo aprendizado, feito de tentativa e erro. Quando trouxe o pai para viver comigo, sabia que seria um caminho desconhecido, mas não hesitei. Haveria de dar a ele um tempo bom, nessa hora em que a pessoa deixa de ser útil. Sim, porque o velho é um inútil do ponto de vista do sistema. Ele não produz mais valor. Não trabalha. Só vive. Vive e frui. O tempo lhe pertence, não há compromissos nem ansiedades com o cotidiano. Muito da memória vai embora, e me parece até bom. Porque a pessoa pode sofrer um bocado com as lembranças.

Nesse emaranhado de coisas, o cotidiano do cuidado não é coisa fácil. Mas, a gente vai aprendendo.

Acostumado a um regime alimentar bem simples, foi dureza fazer o pai comer coisas como frutas, legumes ou peixe. Tudo que oferecia ele recusava.

- Quer um pedaço de mamão, pai? Tá muito bom.
- Eu detesto mamão. Não quero.
- Vamos comer um peixe hoje no almoço, que tal?
- Detesto peixe.  Não vou comer.

E eu me descabelando, sem saber o que fazer para ele comer coisas como brócolis, couve,  manga e outros quetais. A ordem médica era comer bem, tentar ingerir as vitaminas necessárias com a comida, para evitar as bagas.

Foi aí que me deu o estalo. Lembrei das historinhas do Rubem Alves. O negócio é não dizer o que é.

Desde então, preparo uma tigela com mamão cortadinho, ou melão, ou manga, cubro com melado, e boto na sua mão.

- Ó, come aí que tem vitamina.

Ele me olha, sereno, pega a tigela e vai comendo. E se o o cardápio do dia for peixe, eu simplesmente ponho no prato, como quem não quer nada e ele vai comendo, bem campante. Já as folhas verdes, não tem jeito. Se colocar no feijão, ele vai caçando as bichinhas, uma a uma, acumulando no lado do prato.

- Isso é ruim.

O jeito então é fazer “tortillas”, misturado as folhas com batata e ovo. Aí dá certo. Ou então, bater no liquidificador e misturar no feijão, invisíveis.

- Quer café, pai?
- Deus me livre.

Espero um pouquinho, faço o café e levo pra ele, postado em frente à TV, vendo novela mexicana. Ele pega a xícara e vai tomando, comendo um bolinho de cenoura, sem chiar.

A parada é dura, mas é também engraçada. O marrentinho é figura!


Das perdas



Foi lá pelo final dos anos 90, eu fazia mestrado em Porto Alegre. Aluguei um pequeno apartamento no Bomfim, bairro dos meus encantos, e por ali saracoteava entre a PUC, Lancheria do Parque, o bar João e o Parcão. Pura alegria. Nos primeiros meses o dividi com outra companheira de Florianópolis, mas ela terminou seu curso e eu fiquei sozinha. Então, conheci uma garota no mestrado. Era de outro país e havia perdido a bolsa. Ainda lhe faltava um ano para terminar a dissertação. Estava desesperada, sem saber como iria continuar em Porto Alegre.

Então, ofereci a ela ficar comigo no apartamento. Era pequeno, mas não havia problema em receber mais uma pessoa. Ela veio e passou a compartilhar a vida comigo. Não cobrava aluguel dela, óbvio, e tampouco a comida que repartíamos. Sem bolsa, ela ganhava alguns trocados, fazendo um que outro bico.

Eu havia arrumado bem bonitinho o cafofo, pois sempre gostei das coisas assim. Tinha um sofazinho, uma escrivaninha, computador. Tinha meus badulaques latino-americanos pendurados pelas paredes, fogão, geladeira, armário, cama, cômoda. Era um lugar definitivamente fofo. Também havia flores. Viver Porto Alegre desde aquele pequeno espaço no Bomfim era tudo de bom.

Passado um ano, ela me disse que iria se mudar. Já tinha entregado sua dissertação e havia conhecido um rapaz por quem se enamorara. Fiquei feliz. As coisas iriam se ajeitar. Mas, ela não sabia quando. Então, num fim de semana vim para Florianópolis e ela ficou em casa, como sempre. Na terça-feira, quando voltei, a surpresa. Cinco horas da manhã, ainda meio dormida da viagem enfadonha girei a chave. Era um apartamento vazio. Oi? Sim. Completamente vazio.

Voltei e olhei novamente o número na porta, podia ter me enganado e entrado em outro apartamento, sei lá. Não. Era o meu. E estava limpo. Não havia nem os vasinhos de flor. A garota fora embora e levara tudo com ela. Meus livros, minhas roupas, meus quadros, meus enfeites, computador, roupa de cama, os víveres, tudo. Não ficara absolutamente nada. Nem um fio de linha. Tampouco um bilhete, nada.  Fiquei ali, parada, entre estupefata e triste. Como era possível? Eu havia lhe estendido à mão na sua pior hora. E assim ela retribuía? Meus livros, todos marcadinhos... meus livros, a perda maior. Zaratustra, do Nietzsche, um edição portuguesa, com todas as anotações de uma vida de leitura.

Sem condições de repor todo o mobiliário fiquei no apartamento mais alguns meses, dormindo no chão, ele todo vazio. Foi minha experiência humana mais triste. Fiquei pensando que se ela queria os móveis e tudo mais para recomeçar a vida, poderia ter pedido. Eu daria de bom coração, pois logo sairia de Porto Alegre. Eu já não era muito apegada às coisas, mas esse episódio reforçou ainda mais em mim o desapego. As coisas são coisas. Elas vão e vem, e só importam se são uteis.

Só não superei o lance dos livros. Porque, sei lá...  Para mim, os livros não são coisas, são entidades cheias de cheiros, rugosidades e surpresas. Têm vida ali dentro.

Anos depois, numa manifestação de uma das edições do Fórum Social Mundial, eu vi a garota do apartamento, Tereza, caminhando de mãos dadas com seu namorado, participando da passeata. Por um segundo pensei em abordá-la, pedir meus livros. Mas, deixei pra lá. Ela parecia feliz.  Talvez tenha sido a energia das máscaras originárias que ela levara da parede. E, como dizia minha mãe, “mais tem deus pra dar que o diabo pra tirar”. E assim é. 


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Sobre a polêmica da Opra



Sim, a Opra não é nenhuma mulher de esquerda. Ela é sucesso na televisão justamente por isso. Ela é do sistema, é o sistema, ajuda o sistema. É a mulher mais rica dos EUA. Lambe botas dos presidentes assassinos e tudo mais. Ela é preconceituosa e tem posições horríveis sobre a política estadunidense. É uma adversária de todos nós que sonhamos com o mundo justo, com o comunismo. E o mesmo se pode dizer de um bom número de celebridades estadunidenses que estão nessa batalha, agora, contra o assédio sexual.

Mas, em nome da mulheridade é preciso apoiar esse momento em que as mulheres  - atrizes principalmente  - estão denunciando o acosso sexual por parte de vários diretores e atores famosos. Não estão falando de cantadas ou de brincadeiras eróticas, que podem até ser aceitas. O que elas estão falando é do famoso “teste do sofá”. Aquele conhecido “ou dá pra mim ou não trabalha”. É disso que se trata. E aí, minha gente, não dá pra aceitar. Isso é exercício de poder. Isso é coisa contra o que se deve lutar sim. Isso diz respeito aos trabalhadores e trabalhadoras. É uma pauta nossa.

Claro que não dá para esperar da Opra, que é a queridinha da “América” e da classe dominante americana que diz: “olha uma negra famosa, You can too (tu também pode)” , que ela pense nas mulheres que são violadas no Afeganistão pelos soldados do seu país, ou no Iraque, ou na Síria, ou na Colômbia, ou na Guatemala. Ela só consegue ver no seu entorno, seu mundo cor-de-rosa de mulher que “venceu”. Lembrem que ela mesma foi vítima de abuso sexual quando menina. Isso não é qualquer coisa.  De qualquer forma o fato de ela usar seu nome e seu poder para repudiar o assédio sexual no mundo do cinema, é algo importante para as mulheres daquele meio. É sim. Com toda a hipocrisia que isso encerra, visto que é um repúdio cirúrgico, confinado a um determinado lugar, bem específico.

Esse sentimento de sororidade internacional que exigimos dela só existe em nós, que temos esse sonho da sociedade comunista, global, inteira, vivendo em felicidade. E temos de lutar por isso. Um lugar e um tempo em que nenhuma mulher será violada, que ninguém precisará se submeter à violência sexual para garantir emprego, nem mulher, nem homem, nem criança. Esse mundo que sonhamos não é o mundo da Opra. E haverá um momento em que teremos de lutar contra ela. Porque ela é uma mulher do sistema.

Então, deixem que, nesse momento histórico, ela ajude suas compas do mundo da TV. Quem sabe um dia, ela desperte, e, em vez de apoiar os assassinos das gentes no mundo, some-se às fileiras da maioria. Não custa sonhar...As pessoas mudam... 

Mas, por agora, valeu!

Nós aqui, seguimos... No caminho do comum... 


quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Irineu: uma história de amor pela UFSC


Irineu nasceu na pequena localidade de Santa Tereza, em São Pedro de Alcântara, o quarto filho de uma lista de oito. Desde pequenino já era determinado. Quando todos saiam para a roça, junto com o pai, ele ia, mas levava o livro e, se dava uma folga, lá estava ele, agarrado às letras. Queria estudar. No primário foi dedicado, e quando chegou a hora de ir para o ginásio, o sonho se desfez. Não havia escola em Santa Tereza. Teria de ir para São Pedro, era longe, não tinha ônibus. Mas, o pequeno Irineu não iria deixar que um detalhe do destino atrapalhasse o caminho. Pediu um porco ao pai, fez uma rifa e com o dinheiro comprou uma bicicleta, com a qual realizava a longa e exaustiva travessia da sua casa até o ginásio. Foi o primeiro dos filhos a se formar.
Terminado o ginásio, os olhos de Irineu voltaram-se para a capital. Haveria de fazer o segundo grau, mas ainda não sabia como. O pai ganhava a vida arando uma terrinha, trabalhando na horta da Colônia Santa Tereza e fazendo bicos de pedreiro, não tinha como sustentar o guri em Florianópolis. Mas, o acaso deu as cartas. Numa dessas festas de igreja, quando lá estava o pequenino a tocar violão, conheceu uma senhora que era dona de uma pensão na capital, bem atrás da Escola Técnica. Fizeram um acordo. Ele morava na pensão e o pai abasteceria a casa com verduras e legumes. Estava feito. Poucas semanas depois Irineu fazia o exame de admissão e entrava na Escola Técnica. Tinha 14 anos e já assumia a dura tarefa de sustentar-se a si mesmo. Durante semanas ele percorreu os escritórios da Felipe Schmidt, até que conseguiu um emprego de contínuo. Tinha 18 anos e a cabeça cheia de sonhos quando viu o anúncio do concurso para a UFSC. Era o que ia fazer. Inscreveu-se, prestou a prova e foi classificado em quinto lugar. Desde aí nasceu esse caso de amor com a Universidade Federal. Era o ano de 1974, a universidade começava a crescer e Irineu foi crescendo com ela. Já no primeiro ano assumiu a chefia da seção de matrícula e foi tomando gosto pela administração. Mais tarde passou pelo cargo de Diretor de Registro Escolar no DAE/UFSC até chegar a Diretor de Administração Escolar, cargo no qual ficou até 1996. Depois, foi assessor de Administração Acadêmica da Pró-Reitoria de Ensino de Graduação e Diretor de Recursos Humanos da UFSC de 1997 a 2004. Na área acadêmica coordenou o Curso de Especialização em Gestão Universitária da Universidade Federal de Santa Catarina. Como Integrante da Comissão de Políticas de Recursos Humanos da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior, aprofundou ainda mais o seu saber sobre o funcionamento da máquina universidade. Irineu também atuou de forma muito significativa na Estatuinte da UFSC e foi ali que assomou a ideia de um dia ser reitor da universidade. “Eu pude conhecer cada problema, entender cada detalhe, ver a universidade como uma totalidade. Então eu soube que poderia também ser capaz de, com a comunidade universitária, propor soluções para os problemas que tínhamos”. Naqueles dias ele já havia se formado em Administração, carreira que escolheu por ter se apaixonado pelo trabalho que realizava. “Lembro que no começo eu sonhava em ser engenheiro, mas depois que entrei para a UFSC, fui gostando do meu trabalho e Administração foi o caminho natural”. Dedicação e seriedade sempre foram as marcas de Irineu. E justamente por isso que foi eleito, com a maior votação, pelos dirigentes das Instituições Federais de Ensino para a Comissão Nacional de Recursos Humanos de todas as IFES, sendo ainda reeleito e assumindo a vice-presidência da comissão. Ninguém nunca duvidou que ele fosse quem mais tinha conhecimento sobre esse tema. Ao longo de sua trajetória como técnico-administrativo Irineu recebeu várias distinções honrosas, com destaque para o Prêmio Hélio Beltrão - Inovações na Gestão Pública, promovido pela Escola Nacional de Administração Pública, em 2001. O prêmio foi pela criação do Programa de Pós-graduação em Gestão Universitária - PROGEU, lato sensu, dirigido aos servidores técnico-administrativos e docentes da UFSC, que formou 148 especialistas em gestão universitária. Essa ideia foi o marco inicial para criação do mestrado em administração universitária, hoje consolidado. Irineu fez uma linda carreira como técnico-administrativo da UFSC, mas aquele gurizinho que levava os livros para a roça lá em Santa Tereza ainda tinha mais sonhos na manga. Queria ser professor e também reitor da UFSC. Tratou de ir em frente. Fez concurso para docente em Administração e passou. Nem bem chegou e foi eleito para o Colegiado do Curso. Já atuando como docente publicou diversos artigos científicos, bem como colaborou com capítulos de livros em obras organizadas nas áreas de gestão universitária, gestão de pessoas, gestão pública e gestão do conhecimento. Publicou em co-autoria os seguintes livros: Gestão do conhecimento para a tomada de decisão; Prospecção de Cenários; e Processo Decisório. Tudo girando em torno da administração da universidade. Esse é seu chão e seu céu. O garoto mirradinho, que andava pela vila de Santa Tereza agarrado no seu violão, cresceu e hoje é Doutor em Gestão do Conhecimento pela Universidade Federal de Santa Catarina. Já disputou duas vezes o cargo de reitor e conquistou expressiva votação, sempre mantendo firme seu rumo na defesa de uma universidade que ultrapasse os limites dessa instituição que aí está. Uma universidade que avance na democracia, na transparência e na garantia de permanência dos estudantes. Foi com esses desafios que ele disputou o cargo de Diretor de Centro no Centro Socioeconômico, e venceu. Tão logo iniciou a caminhada, junto com a professora Denise como vice, já mostrou a que veio, inaugurando novas dinâmicas. Liberou a transmissão das reuniões do Colegiado do Centro, aumentou o número de técnicos-administrativos, mantém aberto o seu gabinete, circula pelos setores do Centro, torna transparente sua administração. Pois, agora, as reviravoltas da vida colocam Irineu outra vez diante da possibilidade de chegar à reitoria. Trabalhadores (técnicos e professores) e estudantes, em reuniões abertas, o convocaram para que assuma a candidatura. Ele aceitou. Irineu está pronto para mais essa batalha. Dos nomes que se apresentam ele é, sem dúvida, o mais preparado, o cara necessário para atravessar a tormenta que vive a UFSC. Competente, humano, observador, seguro, simples, democrático, Irineu é meu candidato. Ele acompanha a vida da UFSC, ele está nas lutas, ele defende o HU, ele tem amor pela UFSC, ele está pronto para assumir os destinos da universidade. Eu o felicito por essa bela trajetória de vida e deposito nele minha confiança. Convoco cada colega e cada estudante a se juntar à campanha. Essa é nossa hora histórica. Estamos perto de chegar à construção da universidade necessária, como dizia Darcy Ribeiro. Aquela universidade vinculada aos interesses nacionais, transparente, com participação real das categorias em todas as instâncias. Dessa vez não podemos falhar.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

A Voz do Brasil e comunicação no governo Temer



Sempre gostei de ouvir a “Voz do Brasil”, programa obrigatório que é veiculado em todas as rádios, das 19 às 20h, de segunda a sexta. Nessa uma hora ouvimos notícias do governo, do Congresso e do Judiciário. No geral, sempre muito informativo, com um recorrido rápido pelas ações do dia, proposições de leis, decisões judiciais. Um campo muito fértil para pautas, visto que a mídia comercial cobre muito mal os poderes. Claro que é a visão oficial, mas considero necessária para que possamos saber com clareza o que os poderes estão “pensando”. 

Mas, ultimamente, confesso que me está sendo intragável ouvir a querida “Voz do Brasil”. Causa-me espécie aquela voz monocórdia e gosmenta do presidente Temer. Ele sempre fala. Parece com aqueles sindicalistas pelegos que para sair um jornal tem de ter a foto deles. É um saco. Insuportável. Uma voz e uma presença ilegítima, usurpadora, dizendo mentiras à população. 

A Voz do Brasil é um programa produzido pela Empresa Brasil de Comunicação, a EBC, empresa pública que o atual governo vem desmontando silenciosamente. Primeiro foi a extinção do Conselho Curador da empresa através de uma medida provisória, logo depois do golpe. O governo usurpador decidiu eliminar qualquer controle social, extinguindo o caráter público da EBC, golpeando assim a liberdade de expressão e o direito à informação. Porque o Conselho justamente fiscalizava a ação da empresa, evitando assim que os governos de plantão tivessem ingerência na programação e na linha editorial. A função do Conselho era observar se o interesse público era o que direcionava a distribuição da informação. Não foi sem razão que foi extinto. O resultado é o que se ouve na “Voz do Brasil” dos nossos dias. Um jornalismo chapa-branca que chega a dor os ossos.

Não bastasse isso, começou também o corte de verbas. Só em 2017 a EBC recebeu 57,7% a menos do que era previsto no seu orçamento. E tudo isso em função do congelamento dos gastos públicos imposto pelo governo e aprovado pelo Congresso. Agora imaginem o que pode acontecer com um corte dessa magnitude? Tudo. As relações de trabalho se deterioram, a exploração aumenta, cancelam-se contratos e programas, e a qualidade do trabalho vai indo para o saco. Para completar, na última semana a EBC lançou seu plano de demissão voluntária, visando diminuir ainda mais o quadro de trabalhadores. A meta é enxugar até 22%. Ou seja, manter o mínimo.

Essa semana a jornalista Ana Cláudia Mielke, do Intervozes, denunciou que a EBC está a ponto de perder a concessão da Rádio Nacional da Amazônia, que tem um importante papel naquela região, alcançando toda a Amazônia legal. Isso porque a direção da empresa a deixou fora do ar por seis meses depois que um raio causou estrago nos transmissores, com o argumento de que não havia recursos para consertar. Uma região inteira sem informação, sem o sinal que há mais de 40 anos chega à Amazônia através da Rádio Nacional. E um espaço estratégico no qual o rádio ainda tem uma importância crucial. 

Mielke ainda mostra que os programas de inclusão digital estão todos parados e que unidades escolares, serviços de atendimento ao cidadão, postos de saúde e telecentros em todo o país vem sofrendo com o corte de verbas do ministério de Ciência e Tecnologia. A jornalista esclarece que a lógica embutida nessas medidas é a de privilegiar a iniciativa privada. Ou seja, o governo se retira da área da comunicação para entregar todo o processo para o empresariado nacional e multinacional.

O setor da comunicação pode parecer pouco importante para muita gente, mas não é. Manter ativo e com qualidade um sistema de comunicação pública é garantir à população uma informação diferenciada da que é oferecida pelo sistema privado e comercial. A informação dos meios privados está visceralmente vinculada aos interesses da classe dominante. Não há qualquer preocupação com a inclusão de outras vozes. Na TV, rádio, e internet comercial só sai àquilo que os empresários consideram importante para seus lucros. Não há criticidade, não há compromisso com a pluralidade de ideias. 

A proposta do governo encabeçado por Temer é de acabar com qualquer controle público da comunicação no sistema de governo, evitar que outras vozes se expressem e apostar tudo na iniciativa privada. Tanto que se para saúde, educação, segurança e moradia as verbas estão congeladas, para a propaganda governamental, não. Os gastos só crescem. Tanto que só a campanha para mentir ao povo que a Reforma da Previdência é boa consumiu mais da metade do que foi orçado para 2017. Lembrem que propaganda é coisa bem diferente de informação. A propaganda no geral é um douramento de pílula, uma máscara de beleza que se põe nas mercadorias ou nas ideias, que não corresponde à verdade. É usada para mentir e enganar. Já a informação é um direito das pessoas. É a narrativa da realidade, dos fatos, das ideias plurais que convivem no mundo.

Pois a prioridade do governo é a propaganda,  e nos meios privados, que é para enriquecer mais ainda a meia dúzia de famílias que dominam o mercado. O governo as mantém em rédea curta, numa simbiose. Como ganham dinheiro à rodo do governo, procuram manter a população desinformada e enganada, espalhando suas ideias particularistas como se fossem verdades universais. 

A EBC como empresa pública tinha outra linha. Dirigida por um Conselho público, com a expressão de variadas vozes, podia garantir uma informação mais democrática, abrindo debates, dizendo verdades, discutindo criticamente os problemas nacionais. Foi uma longa e dura luta por anos e anos, enfrentando inclusive a miopia dos governos petistas, que nunca deram o devido valor à comunicação. A EBC pública ainda era um campo de batalha, mas estava caminhando a partir da ação de valorosos lutadores sociais, comunicadores e militantes populares. 

Agora, o que se vê é uma comunicação chapa-branca, oficialista, sem criticidade. E, apesar da qualidade dos profissionais que ainda resistem, a tendência é de aprofundar ainda mais essa forma de lidar com a comunicação, destruindo a empresa, mantendo apenas uma espécie de “assessoria de imprensa” governamental. O casamento é com as empresas privadas. E nesse cenário nem mesmo a querida “Voz do Brasil” se salva. Uma tristeza.

É mais um braço da destruição causada pelo golpe. E, apesar do estratégico que é a comunicação, pouco se tem conseguido mobilizar a sociedade para essa batalha. Como cada setor precisa lutar sua luta particular, essas questões ficam obscurecidas. Um erro, porque quem vence a batalha da comunicação já tem meia guerra definida. 



segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

A democracia e o julgamento do Lula



A democracia liberal já mostrou sua verdadeira face na América Latina de várias maneiras. E essa face não é democrática, pelo contrário, é autoritária e absolutamente vinculada aos interesses da classe dominante. Em nome dessa forma de governo o império estadunidense faz guerra, destrói países, promove massacres. Assim, na mídia, o império atuando aparece como liberdade e democracia, e onde a democracia é participativa, real e popular, como em Cuba e na Venezuela, o braço armado midiático do capital aponta como ditadura, totalitarismo, autocracia. Tudo fica de pernas para o ar. E, na cabeça das gentes, a confusão é formada. 

Na Venezuela, em 2002, foi planejado e dado um golpe no governo bolivariano, democrático e popular. Mas, lá, a população agiu em consequência e não permitiu que a coisa seguisse. Não é à toa que desde então, o imperialismo estadunidense tenha tentado de todas as formas destruir o processo iniciado por Chávez. A resistência tem sido grande, ainda que na mídia o governo apareça como mais uma ditadura bananeira. Não é. Lá, o poder está com o povo e isso tem sido reiterado a cada nova eleição. Apesar da guerra econômica, das sanções e da ação criminosa da elite local que tem levado a fome e o desespero para o interior do país, as gentes seguem resistindo.

Mas, ao longo do início do século XXI, a “democracia” alardeada pelo sistema capitalista de produção, concretizada na ação do império, com a participação das elites nacionais, tem servido para provocar o terror. Foi assim no oriente médio com a mal chamada primavera árabe. Foi em 2004 no Haiti, quando um presidente eleito foi deposto, o país ocupado e destruído. Foi em 2009 em Honduras, com um golpe judiciário/parlamentar que tirou o presidente cujo crime foi o de querer fazer um plebiscito para que o povo decidisse sobre as grandes questões nacionais. Foi em 2012, no Paraguai, quando o presidente também foi deposto nesse novo modelo de golpe judiciário/parlamentar, acusado de ser o responsável por um massacre de camponeses, justamente os que ele tentava organizar para a realização da reforma agrária. 

Essa “democracia” acabou chegando ao Brasil em 2016, quando a presidenta foi deposta acusada de um “crime” que sempre foi prática corrente em todos os governos: as pedaladas fiscais. Num julgamento digno do realismo fantástico, um congresso mergulhado em corrupção decidiu pela saída de Dilma, no mesmo modelo de golpe judiciário/parlamentar. Poucos meses depois, o mesmo congresso legalizava as pedaladas fiscais para que o então presidente Michel Temer pudesse pratica-las sem atropelos. Um cinismo sem fim.  

Com Dilma e o PT fora do poder a “democracia” começou a agir. Direitos trabalhistas foram tirados, aplicou-se o arrocho aos trabalhadores e as riquezas do país começaram a ser entregues a preço de banana para empresas multinacionais. Claramente, a democracia de Temer e do grupo que ele representa, é a que defende e amplia os interesses dos ricos. São eles os que têm as dívidas perdoadas e os créditos aumentados, enquanto tudo é tirado dos trabalhadores.

Agora, no dia 24 de janeiro, a turma do golpe pretende dar sua jogada de mestre. Tirar da disputa eleitoral o líder petista Luís Inácio Lula da Silva, que a despeito de toda a campanha de ódio e difamação praticada pela mídia, em conluio com o judiciário, tem se mantido no topo das pesquisas para as eleições presidenciais. Acusado pela operação Lava-Jato, que “misteriosamente” só enxerga as tramoias dos petistas, de ganhar como propina um apartamento tríplex, Lula já foi condenado e nesse 24 deverá ser julgado o seu recurso. Não há qualquer prova de que o apartamento seja dele, mas, mesmo assim, contra a própria lógica do direito liberal de considerar inocente até que se tenham as provas da culpa, o ex-presidente foi condenado. Os próprios juízes fazem declarações e campanhas na internet. Ou seja, o julgamento do recurso será só uma cena a mais nessa grotesca dança das cadeiras do poder, da qual o judiciário tem sido a estrela, comodamente aliado à classe dominante. 

A classe dominante brasileira que, por um tempo, se manteve domesticada no pacto de classe feito com o petismo, decidiu que ela mesma pode comandar a vida por aqui. Não precisa do Lula e muito menos de afagos na classe trabalhadora. Foram apertados todos os garrotes e a massa se manteve quieta. Pelo menos uma grande parte dela. Os que espernearam foram poucos. Todas as maldades liberais foram praticadas, sem levantes ou rebeliões. Tudo está tranquilo. Então, já pode ser sacrificado o líder popular. Ele não é mais necessário. 

O mais terrível nesse conto burlesco é que aqueles que foram golpeados, tanto Dilma, quanto Lula e todo o espectro petista, jamais convocaram a população para a resistência. Todo o processo de impedimento da ex-presidenta, bem como a cruzada judiciária contra Lula, foram tratados dentro da ordem, como se aqui fosse mesmo uma democracia e a população tivesse todos os mecanismos de informação a sua disposição.  Protestos aconteceram, mas foram insuficientes para criar um caldo verdadeiramente rebelde.  Possivelmente porque o próprio petismo já estivesse mesmo bem longe da maioria da população, sem vinculação visceral e orgânica com as massas. 

Agora aí está o dia 24. Um julgamento com seu veredito já conhecido. A cidade de Porto Alegre, onde se dará a cena, já está devidamente preparada para impedir a ação dos partidários de Lula. Uma lei, aprovada pela Câmara de Vereadores, impede a aglomeração de pessoas num enorme raio em torno do local do julgamento e até a Força Nacional foi convocada pelo prefeito. Tudo para criar o clima contra os manifestantes que prometem lotar a capital gaúcha. Policiais se manifestam nas redes sociais dizendo que vão pegar os “petralhas”, é um festival de absurdos para o qual a democracia não é invocada. Ou seja, contra o PT tudo pode. 

E assim, enquanto a mídia prepara o terreno para a retirada de Lula da cena política, os desdobramentos do golpe seguem a passos céleres. É praticamente seguro que quando as eleições chegarem já não haverá mais nada para salvar. O país já terá sido entregue. A cada dia uma ação governamental ou uma nova votação no Congresso são portas escancaradas para os interesses do capital, contra os trabalhadores que são a maioria da população. Já não há mais direitos trabalhistas, o salário mínimo baixou, o custo de vida sobe, os serviços públicos estão com investimentos congelados por 20 anos, as empresas públicas estão sendo vendidas, os setores estratégicos entregues às multinacionais. 

Ao fim e ao cabo o resumo da ópera é bem triste. A vida está girando em torno das eleições, o que mantém completamente livre o caminho para os vende-pátria, que atuam em passo acelerado, fechando os mais absurdos acordos. Há por parte da militância petista uma ilusão de que com Lula no páreo, as eleições resolverão o problema do golpe e tudo voltará ao normal com a vitória do ex-presidente. Como já mostramos, não será assim tão fácil. O trabalho sujo em favor dos mais ricos está sendo feito e seguirá até que o novo presidente assuma, coisa que vai demorar. Nada garante que Lula vencendo desfará tudo o que foi feito. Os acordos que o PT vem amarrando com a mesma classe política que se voltou contra ele são públicos e notórios. Outra vez a lógica de conciliação. E já vimos onde isso deu. 

E, caso Lula seja inviabilizado pelo judiciário no dia 24, há poucas chances de uma chamada geral à rebelião. Possivelmente o PT se manterá dentro da ordem buscando um novo nome para a eleição. De qualquer forma, se o caminho for eleitoral, todo o quadro terá de se reconfigurar. Poucos nomes novos assomam no horizonte. No geral, os possíveis candidatos são os mesmos velhos conhecidos da direita, do centro e da centro-esquerda. Há uma tentativa de fazer crescer o nome de Guilherme Boulos, uma importante liderança do movimento por moradia de São Paulo, mas, ele é muito próximo da política lulo/petista, o que não configura novidade. Tanto que ainda não decidiu se vai entrar no páreo ou não porque está esperando o dia 24. Se Lula for o candidato possivelmente ele o apoiará. 

No espectro da esquerda, o Partido da Causa Operária (PCO) deverá repetir o nome de sempre, assim como o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU). O Partido Comunista Brasileiro ainda não definiu candidatura. O Partido do Socialismo e da Liberdade (PSOL) balança entre seguir com a política mais de centro-esquerda e apostar num discurso mais radical. Tanto que ainda não decidiu a candidatura porque está esperando por Boulos. Enquanto isso, nas suas fileiras o pré-candidato Nildo Ouriques esquenta a chapa apontando para a Revolução Brasileira, exigindo que o PSOL sacuda de vez seus resquícios petistas. Uma queda de braço que deverá durar até março, quando enfim o partido decidirá qual projeto vai disputar o voto dos brasileiros. 

Esse é o cenário atual da vida brasileira no qual a dita democracia segue sendo apenas uma palavra e não uma prática real. Nela está embutida apenas a ideia de eleição, como se isso fosse o centro do sistema. No mundo capitalista nem mesmo a eleição garante a democracia, visto que é o capital quem comanda a ação, comprando votos e definindo as tendências. Democracia de verdade, participativa, é o modo de governo no qual a maioria da população tem nas mãos a decisão sobre a vida nacional. Não só de quatro em quatro anos, votando para presidente, mas a toda hora, coisa que ainda não vivenciamos por aqui. 

O julgamento de Lula acontece dentro do formato da democracia liberal. Um juiz, comprovadamente parcial, um processo, comprovadamente falho e manipulado, uma mídia comprovadamente atuando a favor da fraude. Tudo é uma farsa, grotescamente montada, como se apenas Lula e o PT fossem os demônios pervertidos que se lambuzaram com a corrupção. Eles são parte do sistema, é fato, mas não são só eles, o que para a mídia e para boa parte da população não interessa para nada. Já foram declarados como inimigos públicos. O script é esse e o final já é conhecido. Os bandidos – no caso, os “petralhas” – morrem no final. 

Só que não.

Se a farsa do Lava-Jato excluir Lula da eleição, a corrupção não vai acabar por mágica. Pelo contrário. Sacrificado o cordeiro, tudo seguirá como sempre foi. E o cordeiro, como é parte do sistema, logo encontrará uma forma de renascer. Assim, tudo mudará para que nada mude. 

Esse é o nosso drama.